Se uma rosa é uma rosa, uma rosa, como eternizou a escritora norte-americana Gertrude Stein, o pintor brasileiro Vitor Azambuja não tem motivos para preocupações. Em toda a sua obra de artista ainda jovem, - tem pouco mais de trinta anos - a flor (es) está sempre em primeiro plano. Tudo porque há íntima identidade entre o tema e a sua criação. O que não é de se estranhar.
Primeiro porque Vitor Azambuja sempre fez uma ligação muito especial entre a natureza e a música. Formado em música pelo Conservatório Brasileiro de Música, como pianista, para ele as flores, principalmente, o levam indubitavelmente aos sons que dela exalam.
Não é à toa, portanto que o jovem artista, nascido no Rio de Janeiro e atualmente radicado em São Paulo, as duas cidades mais importantes do Brasil, tem especial admiração pelo pintor impressionista francês Claude Monet. Como ele, sua visão da natureza é feérica, colorida, viva, como tudo que vem da natureza que nos envolve. Vitor costuma afirmar que é um observador: " Às vezes fico horas contemplando a natureza, as cores que ela proporciona, as diferentes matizes, a luz do dia que vai mudando, transformando tudo ao seu redor, mudando os sentimentos, as sensações, os humores".
Nada mais artisticamente correto.Surpreende num pintor de sua idade essa constância em se ligar a um tipo de pintura que requer do criador enorme sensibilidade quanto às formas e às cores. Surpreende porque na atualidade há tendência muito grande de o artista jovem enveredar por caminhos experimentais em busca de contemporaneidade que não está no tema e, sim, nas perspectivas de uma nova era que, na verdade, nem ele, nem seus companheiros de geração ainda sabem como serão, tal a mutação da arte neste princípio de século.
A obsessão de um artista por uma mesma temática não é nenhuma novidade. Nomes famosos da história da arte, como o italiano Giorgio Morandi, por exemplo, só pintou garrafas no decorrer de sua existência. Mas duvido que uma de suas garrafas seja igual a outra, tal a mestria com que o pintor capta cada uma plasticamente. Ai está, a meu ver, a grandeza de um criador, a de querer exaurir um tema como o sopro da originalidade, sem cair nas mesmice da repetição.
Vitor Azambuja tem o domínio do desenho, outra característica que muito o valoriza, quando sabemos que, hoje, são poucos os artista que se detém nesse importante setor da criação. O desenho é tudo em qualquer tipo de expressão. Dá segurança ao artista ao mesmo tempo que pode o levar a caminhos inesperados. O desenho dá ao artista a disciplina necessária para enfrentar os múltiplos aspectos da criação. O que, na verdade, não deixa de ser genético: seu pai, Lielzo Azambuja, é conhecido pintor e ilustrador, com prestigio no Rio de Janeiro, onde atua.
Mas o caminho de Vitor Azambuja é outro. É certo que foi vendo o pai trabalhar que ele começou a despertar para a arte. Com pouco mais de sete anos já fazia seus primeiros estudos, ao mesmo tempo em que se iniciava no piano. O mundo musical que o encantava foi, aos poucos, integrando-se às formas e cores da pintura.
Não foi uma junção fácil. Afinal, tanto a música como a pintura têm vocabulário próprio, embora pintores como Kandinski afirmasse que sentia sons musicais nas suas abstrações que, na verdade, mudaram a história da arte.
Vitor Azambuja começou a pintar por paixão à pintura. Ele confessa que ao ouvir a Sinfonia Pastoral de Beethoven, sentia o vento, as árvores, os rios. "Então - diz ele -comecei a perceber que era isso o que queria. Eu queria passar para as pessoas o que estava sentindo".
As flores, portanto, foram a inspiração que o remeteram à pintura, via, obviamente, a música. Ele não é somente um autodidata. Estudou desenho, teve algumas noções da técnica de pintar, expôs em coletivas de arte no Rio de Janeiro, São Paulo, e até mesmo nos Estados Unidos, na Agora Gallery, de Nova Iorque.
As flores foram motivos para renomados artistas internacionais. Representam um desafio para qualquer criador. Basta observarmos a grandeza de uma artista, como a norte americana, Georgia O, Keeffe para confirmarmos a tese.
As flores para o jovem artista devem proporcionar ao espectador a sensação de bem estar, de sentir-se feliz ao contemplá-las na dimensão de um quadro. E é isto o que ele faz. Dono de técnica invejável, sabendo como poucos guiar suas pinceladas numa atmosfera de sonho e magia, não há uma tela sua igual a outra. A flor não precisa ser necessariamente daquela cor que a vemos, mas sim, modifica-la de acordo com a interpretação que o autor quer. Muitas vezes seus buquês são propositadamente esmaecidos, quase numa linguagem de aquarela; outras, são vivas, tropicais como o país onde ele vive e trabalha. Afinal, cada artista procura captar o ambiente que o cerca. E Vitor Azambuja conhece mais do que ninguém que, vivendo no Brasil, cercado por natureza exuberante e um colorido realçado por um sol de intensa luminosidade, nada mais natural do que transportá-lo para sua pintura. Na verdade, a sua própria existência como ser e artista.
Geraldo Edson de Andrade
Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte.
Primavera de 2003